quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Á mesa com a União Fabril do Azoto

Se há coisa que as grandes empresas ainda hoje não podem dispensar é o seu refeitório próprio. Palco central de convivência diária onde os seus diversos departamentos se cruzam à mesa partilhando conversas e por vezes confidências. Acabado o repasto, cada um segue para os seus postos de trabalho, mas no refeitório a azáfama continua. Se uns partem, outros chegam famintos por uma refeição quente e por um pouco de descontracção. Quando por fim o movimento cessa, começa a melodia do tilintar dos batalhões de pratos, copos e talheres, prontos para a desinfecção e limpeza. 

Como é obvio à União Fabril do Azoto não faltavam refeitórios tanto em Alferrarede (1952) como no Barreiro (1962). Eu sei que à primeira vista, o título desta postagem pode parecer no minímo estranho, mas de facto hoje quero que imaginem que estavam sentados a almoçar no refeitorio da UFA - União Fabril do Azoto de Alferrarede. 

Conjunto de Sopa 






Conjunto de Refeição






Chávena de Café 



Infelizmente quanto á chávena de café, não consegui o seu pires respectivo... Pode ser que algum dia apareça por aí um perdido, pois de facto o conjunto completo daria logo um outro look! 

Esta louça foi fabricada pela, Sociedade de Porcelanas de Coimbra, conforme de pode observar na foto seguinte:



O faqueiro é em inox e como poderão ver com maior detalhe nas imagens abaixo, nos cabos dos talheres está la gravada a sigla da empresa: UFA 




Em termos de dimensões dos objectos, os pratos têm 24 cm de diâmetro, a colher e o garfo medem aproximadamente 20 cm e a faca 24 cm. 

E resta-me deixar aqui um obrigado muito especial ao meu amigo João Pauleta que há uns anos me ofereceu todo este espólio, que guardo com muito carinho. A chávena de café essa descobri-a noutras "guerras" e o guardanapo é da minha casa, tendo-o usado apenas como forma de adereço e embelezamento para dar o toque final de apresentação.  

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

O lançamento da linha de produtos "O´ki Scientific"

Em Fevereiro de 1972, a UNICLAR - Inernacional de Cosmética S.A.R.L., empresa fundada no ano anterior no seio do Grupo CUF, escolheu o salão de festas do Hotel Ritz para a apresentação da marca O´ki Scientific. Para além da administração, quadros técnicos e comercial da empresa, estiveram também presentes os sectores de vendas da UNISOL e da UNIFA bem como o Engs. Vistulo Abreu e Sousa Rego. 

Informação Interna CUF - Junho de 1972, pág. 16

Segundo a noticia publicada no Diário Popular de 27 de Fevereiro de 1972, o O´ki Scientific tratava.se de uma "extraordinária inovação no campo especifico dos produtos para a desodorização corporal. Na realidade O´ki Scientific vem superir uma lacuna não preenchida até agora pelos desodorizantes vulgares - na fórmula de O´ki Scientific entra um componente exclusivo que desempenha uma acção de desodorização automática. Isto é: a sua acção aumenta à medida que a transpiração também aumenta."


Noticia do Diário Popular de 27 de Fevereiro de 1972

Infelizmente ainda não consegui (e depreendo que será tarefa bastante dificil) encontrar os produtos originais aquando do lançamento da linha O´ki, contudo deixo-vos aqui as embalagens daquilo que deve ter sido o segundo "look" da marca ainda fabricados pela UNICLAR.

Pormenor de Conjunto

Sabonete O´ki Scientific (frente)

Sabonete O´ki Scientific (verso)

Aerosol O´ki Scientific (frente)

Aerosol O´ki Scientific (verso)
Para finalizar esta postagem, deixo aqui o anuncio publicitario que saiu aquando do lançamento destes produtos: 



terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Garrafa de Azeite CUF Alferrarede Extra

Eis um achado que tem uma história caricata. Há cerca de dois anos atrás, tive o prazer de me encontrar com esta garrafa de azeite numa feira de velharias. Ao início, nem queria acreditar no que estava a ver. Pensava eu com os meus botões: "Uma garrafa de azeite, e ainda por cima cheia, ali á minha espera? Nah não pode ser!" Até que o vendedor me disse: "atenção ela está cheia, mas não de azeite! Isso é perfume!". E foi nesse instante que percebi porque é que um objecto tão perecível como uma garrafa de azeite com os seus 60/50 anos não tinha ido parar ao lixo.



Pormenor do Rótulo

Há muitas decadas atrás antes de aparecerem as modernas perfumarias e lojas especializadas em cosmética, existiam as drogarias de bairro que vendiam uma parafernália incrível de coisas, entre as quais perfumes para todos os gostos e feitios. Em miúdo ainda me lembro de ver frascos enormes com os nomes dos perfumes aos balcões das drogarias, as pessoas indicavam qual a marca e a porção  que desejavam e era só levar para casa e encher nos frasquinhos. Quem quer que fosse a pessoa, certamente comprou à época este litro de perfume "a vulso" dessa forma, e praticamente não o gastou.

Porém a história não acaba por aqui. Quando comprei esta garrafa, vinha tapada com uma rolha de cortiça para que o perfume não se evaporasse. Perfeccionista como sou, sabia que tinha de encontrar (se conseguisse) uma tampa original por forma a completar esta rara peça. Após uma espera de dois anos, lá descobri uma pessoa que tinha precisamente uma tampa de rosca que completava a peça e no Sábado passado fui de propósito ao Montijo busca-la, sendo o resultado final este que aqui vos apresento.

Pormenor da Tampa com o simbolo da CUF


Outro pormenor evidenciando a rosca

A datação desta garrafa não é tarefa fácil, contudo parece-me ser anterior ao modelo que consta no espólio fotográfico de Horacio de Novais pertença da Fundação Calouste Gulbenkian que aqui publico. Aparentemente este novo modelo de garrafa terá sido lançado no ano de 1961, pois é desse ano o unico anuncio que encontrei e que faz referencia a esta marca. Atente-se que nesta nova versão a velha rolha de rosca é substituida por uma cápsula e o rotulo passa a deter um fundo a branco.

Foto do Espolio Horacio de Novais - F.C.G.


Anuncio de 1961

Foi também lançado um engraçadissimo porta-chaves publicitário referente a este produto que aqui vos deixo:





quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O Congresso da ISMA - 1954

Entre os dias 24 e 30 de maio de 1954 realizou-se em Lisboa um Congresso Internacional de Superfosfatos (I.S.M.A. - International Superphosphate and Compound Manufacturers Association) que contou com a presença de representantes das seguintes nações: Portugal, Espanha, França. Inglaterra, Irlanda, Suiça, Alemanha, Itália, Bélgica, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlandia, Holanda, Estados Unidos, Africa do Sul, Norte de África, India e Nova Zelândia.

Postal do Casino Estoril

O banquete inaugural reuniu cerca de 500 pessoas e decorreu no Casino Estoril, sendo presidido pelo secretário de Estado do Comércio e Industria. No fim do banquete o Dr. Jorge de Mello na qualidade de representante da Indústria Portuguesa a este congresso saudou todos os presentes. Depois de agradecer as facilidades concedidas pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros para a realização deste congresso referiu que a indústria portuguesa de superfosfatos não existiu entre nós até ao ano de 1908. Focando-se depois na actualidade referiu a existência de três empresas nacionais produtoras de Superfosfatos cujas suas fábricas foram totalmente modernizadas depois da última guerra. De seguida
Dr Jorge de Mello
frisou: "Fazemos face a todas as necessidades imediatas da Lavoura metropolitana e ultramarina e estamos preparados para os aumentos de consumo que derivarem da activa politica de fomento agrário do nosso Governo. Mas, enquanto o mercado interno não se desenvolver suficientemente sobram-nos largas disponibilidades para exportação, quer por possuirmos grandes fábricas modernas e bem apetrechadas; quer devido às existências de pirites no nosso País; quer ainda pela sua posição geográfica, relativamente aos jazigos de fosfatos do Norte de África, Portugal estaria hoje em condições de ocupar posição de maior destaque na exportação de superfosfatos se tivesse querido colaborar mais activamente na desordem internacional de preços." Falaram de seguida os Srs. Colbejornsen e Grandgeorge manifestando palavras de reconhecimento aos organizadores do Congresso. O Presidente do I.S.M.A. Sr. Biro agradeceu a festa e por ultimo o Subsecretário do Comércio referiu-se à necessidade da intensificação da lavoura nacional, por forma a dar resposta ao elevado ritmo de crescimento da população nacional.

Casa São Cristóvão no Estoril onde decorreu o Cocktail 
O local escolhido para a realização das reuniões deste Congresso, foi a sede da Associação Comercial de Lisboa. E como não poderia deixar de ser da praxe, entre estas reuniões, realizaram-se visitas turísticas e almoços de confraternização. No dia 26, os membros do Congresso visitaram os arredores de Lisboa tendo visitado o Palácio de Queluz, de seguida foi servido um almoço nos jardins do Palácio de Monserrate a convite da Câmara Municipal de Sintra. À tarde, D. Manuel de Mello ofereceu na sua casa do Estoril um cocktail aos congressistas.

No dia seguinte a comitiva rumou a Vila Franca de Xira, mais concretamente à Estalagem do Gado Bravo, local escolhido pelas empresas das minas de S. Domingos, Lousal e Aljustrel para oferecer o almoço aos congressistas. Durante o repasto os 400 congressistas poderam admirar danças e cantares caracteristicos da leziria ribatejana, tendo-se distinguido os seguintes solistas: Manuel Rabaça, Maria Paixão e Maria das Graça. Seguiu-se uma garraiada em que tomaram parte os cavaleiros Manuel Conde e Francisco Mascaranhas.


Capa do Menu


Menu do Almoço

Complexo da CUF no Barreiro

No dia 28 os delegrados do I.S.M.A. visitaram demoradamente as fábricas da CUF no Barreiro sendo acompanhados pelo Sr. D. Manuel de Mello, Nicolas Gregori, José Manuel de Mello e eng. Eduardo Madaíl administradores daquela empresa, bem como pelo Dr. Jorge de Mello, delegado a indústria portuguesa ao conselho da Associação Internacional de Fabricantes de Superfosfatos. Depois de terminada a visita foi oferecido pela administração da CUF um almoço, no meio do qual o Sr. D. Manuel de Mello usou da palavra, merecendo sem sombra de duvida serem lidos os seguintes excertos:

"Dirijo-me a homens de trabalho para quem o estudo, o espirito de decisão e a actividade valem mais do que a oratória. Tal como os congressistas, entendo que os ruídos de uma fábrica em laboração valem mais do que um discurso. Direi mesmo: para visitantes de alta categoria social e industrial de V. Exas. valem mais do que qualquer outra homenagem. Escutemos, então, o que esta fábrica nos está dizendo pelas voz de suas máquinas.

Ela quer contar-nos a sua história, as suas grandes dificuldades iniciais, o seu lento progresso , as lutas constantes, as desilusões e as vitórias. É, afinal, a história de quase todas as grandes fábricas que pelo Mundo têm sido geradas por esse inigualável factor de fomento que se chama iniciativa privada. Mas esta fábrica fala-vos, principalmente do homem, tantas vezes incompreendido, que a soube criar e fazer grande. Do homem que, mesmo no túmulo, permanece junto dela, como que a dirigi-la ainda com o seu espírito imortal e a extraordinária força de vontade que para nós, seus sucessores continua sempre viva. Muitos de V. Exas. o conheceram e com ele conviveram em reuniões e congressos internacionais.

Alfredo da Silva, com audácia, inteligência e tenacidade, com o mais são, mais útil e mais indiscutível patriotismo, foi o primeiro industrial português do seu tempo, em época em que as grandes iniciativas económicas não tinham ainda o devido acolhimento entre nós. Deu-nos exemplo magnifico, exemplo que frutificou. Apontou-nos o caminho do futuro. Soubemo-lo seguir. Antes de Alfredo da Silva se lançar no fabrico de superfosfatos, faltavam quase totalmente á lavoura nacional os adubos nacionais, motivo por que ela se encontrava á mercê das guerras e outras causas de dificuldades de abastecimento do estrangeiro.

Fabrica de Superfosfatos da C.I.P.

Hoje além desta fábrica que estão escutando, existem em Portugal mais duas outras, a da SAPEC de Setubal e a da Companhia Industrial Portuguesa na Póvoa de Santa Iria cuja soma de capacidade de produção atinge cerca de 650.000 toneladas a mais de superfosfatos, equiparadas portanto, para todas as necessidades actuais da lavoura metropolitana e ultramarina e para os aumentos de consumo previstos. Portugal, que soube conquistar o seu lugar como exportador de superfosfatos, deseja mantê-lo, para o que tem direito incontestável."

D. Manuel de Mello
O Sr. D. Manuel de Mello concluiu dizendo:

"Ao receber visitantes tão ilustres, esta fábrica inscreve os seus nomes, a letras de ouro, na memória dos seus dirigentes. Em meu nome pessoal e no conselho de administração da Companhia União Fabril, brindo por V. Exas. pela prosperidade das obras económicas e sociais que dirigem e faço votos  ardentes para que o congresso do I.S.M.A. contribua para a cooperação internacional cada vez mais forte e portanto, cada vez mais util para todas as nações nele representadas."

De seguida o Sr. Douglas Bird usou da palavra agradecendo em seu nome e dos delegados o prazer que a Companhia União Fabril lhes proporcinou de visitarem as suas fábricas do Barreiro. O representante da Holanda, Sr. J. D. Waler agradeceu a recepção dispensada e brindou a Portugal. Por ultimo o Subsecretário do Comércio e Industria, regozijou-se com o facto de o congresso ter sido realizado no nosso país, permitindo aos delegados conhecer a realidade do nosso desenvolvimento industial, bem como das gentes portuguesas.

Após o almoço os congressistas dirigiram-se para Belém, para ali visitar o Museu dos Coches, seguindo depois para o Castelo de S. Jorge.

Fontes consultadas:

- O Século, Diário de Noticias, Diário Popular

domingo, 15 de outubro de 2017

Cinzeiro da Setenave

Meus amigos, aqui vos deixo um dos meus últimos achados: um cinzeiro da Setenave em alumínio. Infelizmente pouco sei sobre ele, como podem ver pelas fotos, nem se consegue perceber onde poderá ter sido feito. É bonito, tem um design apelativo, é leve, vê-se que foi utilizado, e é tudo. Espero que gostem. 




domingo, 1 de outubro de 2017

Anúncio da Sociedade Geral - 1952

Uma das coisas que desde muito jovem sempre me saltou á vista foi a publicidade, sempre gostei de parar nessas páginas, ver a criatividade, o grafismo, e o conteúdo das mensagens. Hoje em dia como investigador, tenho o previlégio de poder olhar diáriamente para uma vasta panóplia de anúncios das mais diversas épocas, graças aos jornais, revistas e outras publicações que tenho de consultar, o que me fez estreitar ainda mais o gosto pela publicidade. 

Como é do conhecimento geral o Grupo CUF sempre apostou forte no sector publicitário, por isso não admira que tenha em minha posse mais de quatro centenas de anúncios. Contudo o mais engraçado é que de tempos a tempos lá se descobrem mais anuncios novos que eu nem fazia ideia que existiam! Pois de entre os diversos anúncios da Sociedade Geral que eu fui arquivando ao longo dos anos, nenhum me chamou tanto à atenção como este que hoje vos mostro. Descobri-o por acidente num livro que estava á venda numa feira de velharias, é claro que o tive de trazer para casa!  

Apesar de muito simples o seu grafismo é delicioso. O mastro e as duas bandeiras a cores com os navios "Alferrarede" e "Alfredo da Silva" imprimem dinamismo e acção ao anúncio. A escolha do navio "Alferrarede" não é inocente, sendo que esta publicidade se encontra num livro laçado em 1952 designado "Abrantes cidade florida" que é nem mais nem menos que uma detalhada monografia do Concelho Abrantino, da qual a localidade de Alferrarede faz parte. O "Alfredo da Silva" para além de ser o navio mais recente à epoca na frota da Sociedade Geral, era também o maior navio (até então) construido em Portugal, considerado um marco da politica de Ressurgimento marítimo que por essa época o governo propagandeava.  





quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Exposição "Lisboa e Benfica - 20 Clubes, 20 Histórias"

Cartaz da Exposição

Está quase a terminar a exposição na qual participei não só na qualidade de investigador, como de ter sido o "embaixador" da CUF, pois não havendo ninguem deste clube que foi extinto por volta de 1947, fui eu quem emprestei o pouco espólio que possuo. 

Galhardete e Botoeira do CUF de Lisboa


Independentemente dos gostos clubistas de cada um, esta é uma exposição que para além de focar a história do Benfica, dá também ela um grande ênfase ao futebol lisboeta e a sua história. Uma história bastante rica, quer em termos de agremiações desportivas, "estórias", e velhas rivalidades entre Clubes. Se alguns deles não chegaram até nós, soçobrando por entre as adversidades dos tempos, (casos da CUF, ou do Cruz Negra) outros continuam a testemunhar a sua existência ao serviço do desporto e da cultura (casos do Oriental, CIF, Casa Pia, Belenenses, Atlético). E pelo meio de toda esta riqueza, encontram-se sempre curiosidades, especialmente nos tempos idos onde o futebol era vivido mais de perto pelo público. Foi precisamente esse o propósito desta exposição: dar a conhecer a riqueza do futebol lisboeta nos tempos em que o Campeonato de Lisboa, causava verdadeira sensação, arrastando aos domingos, grandes massas de adeptos aos campos onde se disputavam verdadeiros "derbies" futebolisticos (às vezes tanto no campo, como na bancada).


Ficha do Clube, texto de uma partida de futebol entre a CUF e o Benfica e cartoon de Ricardo Galvão


Ricardo Galvão, cartoonista do jornal A Bola, dá vida a cada uma vinte histórias ali apresentadas, sendo sempre que possivel complementadas com objectos de cada um dos Clubes. Tarefa essa que nem sempre é fácil, pois se há Clubes que tiveram o cuidado em ir guardando e preservando a sua história, de outros não restou praticamente coisa alguma. Digo isto com conhecimento de causa, pois fui um dos elementos responsáveis por contactar com alguns dos clubes em questão. 

Para quem como eu, gosta e aprecia caricatura, vale apena ver com olhos de ver, as excelentes caricaturas de Stuart de Carvalhais, Pargana e João Martins todas elas ligadas ao mundo do Futebol. Uma autêntica delicia! 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Os 44 anos do hipermercado Pão de Açúcar/Jumbo em Cascais

Fez ontem 44 anos, que a inauguração do 17º estabelecimento do Pão de Açucar em Portugal revolucionou a ida às compras na Linha de Cascais. O novo hipermercado mudou hábitos de consumo, democratizou preços e levou maior variedade de produtos e bens a um vasto número de pessoas. Localizado estratégicamente junto á Estrada Marginal e à Linha de Comboio, não admira que se tenha tornado ao longo destes anos, tambem ele, um ícone desta Vila, tal como foi no passado o já desaparecido Hotel Estoril-Sol. É impossivel não se notar na azáfama diária de carros e de gente que ali se deslocam para fazer as suas compras. 

Como é referido na Revista Binário de Outubro de 1973 "Aos técnicos responsáveis por este novo empreendimento foi imposta uma brevidade na elaboração do projecto e na execução da obra que constituiu verdadeiro desafio à sua capacidade. Um desafio que aceitaram conscientemente, enriquecidos, como estavam, pelas experiências anteriores. 
Cento e vinte dias era o prazo fixado; trabalhou-se num ritmo intenso, ergueram-se cerca de 9 mil metros cúbicos de betão, num curto espaço de tempo fez-se praticamente tudo o mais: acabamentos, decoração, montagem do equipamento..." 






Caixas
O hipermercado do Pão de Açucar (actual Jumbo) ocupa uma area de 15.500 metros quadrados no qual o sector de vendas detinha à epoca um total de 5500 metros quadrados. Neste projecto tudo foi estudado ao pormenor inclusive a sua estéctica "No caso de Cascais, com uma urbanização definida e esteticamente valorizada, houve, no entanto, que procurar uma aliança entre as soluções técnicas e os ideais estéticos, por forma a enquadrá-lo dignamente no conjunto. Pôs-se assim de parte a concepção tradicional, marcada da maior sobriedade, para levantar um edificio de linhas mais apuradas, em que a fachada, rica de pormenores, empresta logo um aspecto deveras agradável. Essa mesma determinante inspirou o garden-center, com uma estrutura de ferro e vidro, no qual se atendeu, acima de tudo, ao cosmopolitismo de Cascais e ao propósito de contribuir para o seu aspecto paisagístico." 





                                                                                                           





   
     




Programação e coordenação: Eng. César Palha (Direcção de Expansão dos Supermercados Pão de Açúcar - Lisboa) Arq. Carlos Novais (Construtora Pão de Açucar, S.A. - S. Paulo)
Projecto de Arquitectura: Arq. Eugénio Nascimento
Projecto de Engenharia: Profabril
Direcção da Obra: Eng. Basto Machado
Projecto de Frio: Eng. António Vilela
Decoração: Agostinho Rocha 
Equipamento: Joaquim Serralheiro



A sua inauguração foi um verdadeiro acontecimento para a época, centenas de pessoas aglomeraram-se desde muito cedo junto à entrada do estabelecimento. O Dr. João Flores (Administrador-Delegado da SUPA) recebeu á entrada do edificio o presidente e vice-presidente da Câmara de Cascais, respectivamente, engº Pinto Machado e comodoro Julio Vieira Lopes, o Dr. Jorge de Mello, Eng. Sousa Rego, Vistulo de Abreu, e Drs Abilio e Arnaldo dos Santos Diniz. Após o discurso inaugural prferido pelo Dr. João Flores o pároco de Cascais, Assis Cardoso deu a benção a todos os que empenharam o seu esforço e talento no notável empreendimento, seguidamente a senhora de Pinto Machado cortou a fita simbólica, iniciando-se a visita inaugural. 



          











Snack-Bar
Como é referido no Diário de Noticias de 15 de Setembro de 1973 "Além de todas as secções comuns a todas as lojas, o Pão de Açucar de Cascais apresenta um actualizado pronto-a-vestir, sapataria, balcões de óptica e cosmética, fotografia, e cinema, artigos de campismo e desporto, acessórios de automóveis, bicicletas, electrodomésticos, roupa de casa e mobiliario. Tem igualmente, um excelente snack-bar e uma moderna secção de padaria e de pratos cozinhados. Prevê-se ainda para breve, a abertura de um «garden-center». autêntica novidade nos estabelecimentos similares, e onde poderáo adquirir-se utensilios de jardinagem, sementes, plantas, adubos, vasos e terras, bem como, numa secção anexa, peixes e aves e plantas aquáticas.
Sublinhe-se também, que o Pão de Açucar de Cascais tem a maior rede de frio de todos os supermercados da Peninsula Ibérica e que para comodidade do público, dispõe de um parque para 300 automóveis" Á epoca este estabelecimento era sem sombra de duvida o mais moderno e mais bem equipado hipermercado do país. 



Garden-Center
Pormenor do Interior do Garden-Center
Anuncio da Inauguração do Pão de Açucar de Cascais


Passados que são 44 anos, é natural que muito tenha mudado no actual Jumbo, que hoje tem um parqueamento muito maior devido á construção há mais de 20 anos do silo auto de 2 andares. O espaço do antigo Garden-center já não existe, dos cinemas já só resta uma leve lembrança etc. E é bem possivel que hajam novas alterações (desta vez alterações radicais) relacionadas com aquele espaço. Na edição online do Jornal Expresso de 12 de Março de 2017, é apresentado um novo projecto que pretende revolucionar a entrada de Cascais. O que uns chamam de revolução, chamo eu de pura especulação imobiliária que ira trazer dividendos fenomenais a alguns! Mas quem sou eu para julgar tais propósitos! Deixo o assunto á sensibilidade e visão de cada um. Para mim o mais divertido é ir à página do projecto, fazer o download do seu powerpoint e chegar à parte histórica e ver aquilo em branco. Vê-se de facto o valor dado à parte histórica neste país nos mais diversos sectores. Se calhar estavam á espera que um tipo como eu, lhes fizesse o trabalho de casa. Agora já podem vir aqui roubar e fazer "copy-paste" à vontade, como aconteceu já com tantas postagens deste blogue!



Abilio Diniz
Em jeito de remate coloco em destaque a figura de Abilio Diniz. Para muitos acredito que seja um nome totalmente desconhecido. Abilio dos Santos Diniz, é filho de Valentim dos Santos Diniz, originário de uma aldeia do distrito da Guarda, e que cedo imigrou para o Brasil, à procura de uma vida melhor. O que começou por ser uma modesta doçaria com o nome "Pão de Açucar" tornou-se anos depois na maior cadeia de super e hipermercados da América Latina. Abilio desde cedo se interessou pelo negócio, apostado em fazer crescer ainda mais a marca. Assim entre 1959 e 1963 estudou nos Estados Unidos da América, as mais modernas técnicas e métodos de distribuição a todos os níveis, uma espécie de formação "de como ter êxito na vida montando supermercados" terá ele dito a uma entrevista de uma revista. Abilio foi o grande responsavel pela rápida expansão da marca "Pão de Açucar" pela América Latina, tornando-se num empresário respeitado quer no Brasil quer no estrangeiro. Por isso não é de todo estranho que um homem dinâmico como ele, tenha aceite o desafio de se juntar ao Grupo CUF por forma a internacionalizar ainda mais a sua marca. A sua presença em Portugal oferecia-lhe não só o mercado interno e ultramarino (Jumbo de Luanda), mas ainda a possibilidade de fazer crescer o nome "Pão de Açucar" na Europa. E a verdade é que em meados de 1974 foi inaugurado no centro de Madrid o "Pan Azucar", havendo planos para estender a sua actividade a Londres, mas as mudanças politicas em Portugal e a consequente nacionalização do Grupo CUF deitaram por terra esse projecto.